Política - ABERTA A TEMPORADA DE 'ARTES CÊNICAS'
Com a aproximação das eleições, e da substituição da propaganda partidária pela eleitoral nos meios de comunicação, estará aberta a “temporada de artes cênicas” – com direito a muita pirotecnia – que ocorre quando os candidatos botam o bloco na rua para brigar pelos nossos votos. Não custa lembrar algumas regras básicas para você se proteger (bem como a todos nós, que seremos atingidos pelas escolhas erradas) e ficar de olhos bem abertos para podermos avançar mais rapidamente nas melhorias que há tempos se fazem urgentes no país. Então tente controlar sua resistência a textos um pouco mais longos, e atente para algumas regras básicas expostas a seguir, de modo a reduzir os riscos de uma má escolha. Elas podem evitar muito sofrimento pra você e para os que lhe são caros nos próximos quatro anos, ou talvez para muito além disso.
1 – NÃO ACREDITE EM TUDO O QUE OUVE OU VÊ
Políticos bem ou mal intencionados não aparecem na TV com selo do Inmetro na testa. A diferenciação ocorre pelo que conseguem que você acredite e ajude-os a defender. Isso não depende apenas do poder de convencimento que demonstram, mas também dos canais de comunicação de que fazem uso para suas campanhas. Muitas delas – inclusive as empresas que as sustentam – estão fortemente interessadas que seus candidatos cheguem ao poder para ganhar dinheiro com as benesses prometidas por eles, caso o consigam. Assim, não utilize como parâmetro o “show de pirotecnia” que alguns desses meios de informação fazem uso para fazer você acreditar que o candidato é sério. O poder da mídia é muito mais forte do que imagina – suficiente para eleger ou destruir um candidato – daí que a credibilidade da fonte, através da análise de todo o seu histórico e influência de massas, é fundamental para nortear sua escolha. Muita atenção na checagem de dados junto a outras fontes, e toda atenção às contradições entre discursos atuais e passados, entre diferentes meios de comunicação ou direcionados para diferentes públicos.
2 – OS “COMPANHEIROS” DE AGORA NÃO UNIRAM FORÇAS PARA MELHORAR SUA VIDA
Em países como o nosso, cuja população aumenta em ritmo muito maior do que a educação levada às pessoas, é muito fácil convencer a maioria desinformada a votar por qualquer cesta básica oferecida, já que a esmagadora maioria não tem sequer o suficiente para não passar dificuldades. O raciocínio é simples: o governo toma muito e oferece quase nada em troca, estimulando a lógica da “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Os políticos sabem muito bem disso, e que o investimento feito em você é desprezível perto do que você lhes pode proporcionar a ponto de torna-los ricos num único mandato, como muitos já demonstraram. A política nacional é tradicionalmente marcada por uma fisiologia histórica, alimentada por altos interesses na formação de um curral político que dê sustentação aos seus desmandos em troca de apoio parlamentar pós-eleição. Tudo isso aliado à baixa civilidade do cidadão, ou seja, à mentalidade instalada na maioria do “cada um por si e Deus por todos”, que não se preocupa com o coletivo, o cenário está formado para um garantido e longo período de manipulações. Atenção então para partidos que se atacavam mutuamente e de repente se unem na véspera das eleições, bem como políticos que antes eram “adversários ferrenhos” dos que estavam antes no poder, e agora se abraçam e se desmancham em elogios mútuos como se fossem amigos inseparáveis desde criancinha. Eles estão de olho no bolso deles, e não no seu bem-estar.
3 – OS “INIMIGOS” DE HOJE SÃO OS MESMOS QUE SE ABRAÇAVAM ENTRE DUAS ELEIÇÕES
Não acredite no “despertar para a realidade” de antigos aliados que, de uma hora para outra, se tornaram inimigos e passam a detonar os antigos “companheiros inseparáveis”. Políticos honestos colocam foco em suas propostas, não em “limpar o caminho” afastando a concorrência que o ameaça... Portanto, fique de olho! Muitas das vezes isso não passa de uma estratégia de seus assessores para que as lambanças dos parceiros que se deixaram apanhar não respinguem nos seus amigos de cruz e espada. O afastamento, nesses casos, só acontece nos palanques, mas fora dos holofotes eles trocam idéias sobre o que pode ser dito para dar credibilidade ao clima de animosidade e discordância de ideais sem comprometer um ao outro para as próximas eleições, em que “trocar dedinho-de-bem” pode ser muito mais vantajoso que aparentar conflito de ideologias. É claro que com isso eles também contam com a conhecida – e comprovada – falta de memória política da população.
4 – AS ALIANÇAS POLÍTICAS PRECISAM DE NÚMEROS, NÃO NECESSARIAMENTE DE IDEOLOGIAS
Uma prática que se tornou rotineira na política nacional, independente de partidos, candidatos ou propostas de governo, é a associação de partidos que ocorre em alguns locais e noutros não. Algumas chegam ao absurdo de reunir nos palanques de uma mesma eleição pessoas que antes defendiam idéias diametralmente opostas, dependendo das tendências locais para aumentar votos através das alianças. Elas ocorrem, é evidente, em função do reduto eleitoral dos partidos, que são aqueles locais que concentram maior número de eleitores de uma mesma legenda. Assim, duas legendas fortes em um município podem se mostrar invencíveis se unirem seus eleitores, e uma delas pode ser vulnerável em outra se o político local do partido parceiro tiver queimado o próprio filme, podendo contaminar o outro com suas “pisadas na bola”. Aí os arranjos locais se mostram necessários para harmonizar semelhanças e diferenças que se apresentem vantajosos para os dois lados. O lado bom desses “conluios” é que eles facilitam a diferenciação entre interesse político e fidelidade ideológica. Os que realmente se mantêm fiéis ao que acreditam geralmente optam por lutar para convencer o eleitor sobre suas propostas, ao longo de um histórico de sucessivas tentativas, em vez de apostar numa única eleição para chegar ao poder por meio das tais alianças circunstanciais e oportunistas. Os adeptos destas apostam no enorme número de partidos existentes no país para deixar o leitor perdido entre tantas linhas ideológicas que dificultam, inclusive, descobrir-se quais, efetivamente, são respeitadas por seus membros.
5 – OS “ATORES” NÃO ACREDITAM QUE VOCÊ VÁ CONFIRMAR O QUE AFIRMAM JÁ TEREM FEITO
Pense no seguinte: com um povo constituído por uma maioria desinformada e de interesses imediatistas que, por não receber o mínimo necessário, se contenta com qualquer coisa – e onde qualquer “show pirotécnico” traz mais resultado do que o investimento mínimo para um trabalho sério – quantos vão se preocupar efetivamente em “queimar a mufa” para promover mudanças duradouras? Mais vale uma “operação tapa-buraco” do que botar dinheiro na pavimentação, ou uma “caiação” na rachadura do que investir na fundação, não é assim? A gravação para a campanha na TV também coloca foco muito maior no impacto instantâneo que vai produzir em você do que em oferecer dados que possam ser checados, acerca do que lhe prometem. Não se faz necessário sequer usar de precisão técnica quanto aos benefícios que afirmam já ter proporcionado a seus eleitores, pois basta ser esperto o suficiente para mostrar apenas a sua versão dos fatos. Por maior que seja a lambança, e não importando toda a divulgação de que tenha sido alvo na ocasião, sempre se poderá mostrar “o outro lado da história”, oferecendo uma versão de “ações altruístas desvirtuadas por adversários políticos”. Lembra daquele conhecidos jargões do “isso não é meu” ou do “eu nem estou aqui” que divertiam você nos programas humorísticos? Pois não duvide: eles acontecem na vida real, e aqui não se mostram nem um pouco engraçados.
6 – OS “ATORES” CONTAM COM SEU COMODISMO PARA NÃO COBRAR O QUE DIZEM QUE VÃO FAZER
A internet está cheia de vídeos mostrando a diferença de postura de políticos quando diante e fora das câmeras (ou quando não desconfiam que estão sendo gravados). Mas quem se importa? Nenhum deles desconhece o perfil da maioria de seus eleitores, que dão provas cabais e diárias de desinteresse, desinformação, ignorância política e espírito mercenário que se vende por qualquer coisa. Há bem pouco tempo era fácil lidar com isso via coronelismo, influência local e “voto-de-cabresto”. Com o incremento da tecnologia e maior possibilidade de controle social tivemos algumas melhorias, mas não o suficiente para garantir que a esperteza dos maus políticos não consiga descobrir outro “jeitinho brasileiro” para contornar os obstáculos e garantir votos, já que boa parte de seus eleitores também torce para não “perder a boquinha” que seus candidatos oferecem quando se elegem, como ter emprego público sem jamais precisar comparecer à repartição. Afinal, quem é mesmo que paga a conta? Uma esmagadora fatia acha que não é ele, que apenas recebe, mas não ajuda a pagar. Então fica fácil prometer qualquer coisa, pois a maioria se acomoda apenas com a vantagem que lhe prometem. Afinal, quantos se dão ao trabalho de levar a cobrança a sério depois, num país em que quem o faz acaba com fama de “otário”?
7 – A ESPERANÇA SEMPRE É O RECURSO DE VELHAS RAPOSAS PARA PEGAR OVELHAS INGÊNUAS
Observe um fenômeno interessante que gira em torno do “estímulo à consciência política” dos cidadãos: os jovens não são maduros o suficiente aos 16 anos para responder por seus crimes, que têm alcance restrito, mas em contraste estão plenamente cônscios de suas responsabilidades na complexa tarefa de escolher as pessoas que decidirão a vida de todos os cidadãos, sem exceção! Não requer ser especialista para conseguir entender essa matemática: a mesma adrenalina que incita o jovem a buscar atalhos para o sucesso pode tanto levá-lo ao submundo quanto à militância política. Ambas são fontes de poder, e o combustível natural dessa faixa etária é realização! Não é de admirar, então, que o convite para a “consciência cidadã” só se estenda aos direitos, mas não às responsabilidades para com a sociedade. O jovem realmente consciente – e existem muitos, com certeza – tem conhecimento de que corruptores apostam na ingenuidade dos despreparados. Haja vista, inclusive, o enorme contingente de jovens que incessantemente engrossam quadrilhas em práticas criminosas, manipulados por adultos que se escondem na imputabilidade penal dos primeiros. A contribuição maior que estes jovens poderiam dar ao país seria cobrar do poder público a igualdade entre direito e dever para si mesmos, já que os que possuem tal consciência têm a prerrogativa de escolher o próprio caminho, e todo interesse em separar o joio do trigo para não ter amigos entre os manipulados, ou serem tratados como “farinha do mesmo saco”.
8 – A CENA A QUE VOCÊ ASSISTE FOI MUITO BEM ENSAIADA ANTES DE LEVADA AO PALCO
Tem aquele tipo de político que se costuma chamar de “carismático”, pelo enorme poder de atrair as massas para defender e replicar suas idéias. A política de agora, porém, não é a mesma de há 30 anos atrás, que apostava na liderança natural de seus partidários e até os escolhia por essa capacidade de captar adeptos. Atualmente existem profissionais altamente especializados em transformar qualquer candidato no político que qualquer população deseja. Tais especialistas passam suas vidas pesquisando as expectativas de seus nichos eleitorais de forma a preparar os que os contratam para se mostrarem como os verdadeiros “escolhidos de Deus” para governá-los. Então não se iluda com palavras bem colocadas, posturas firmes e respostas precisas. Tudo isso é resultado de um empenho extraordinário dos assessores de marketing para que cada gesto e cada olhar consiga passar ao eleitor toda a segurança que ele espera sentir em relação ao homem que escolherá para controlar o seu destino. É uma tarefa das mais difíceis atualmente diferenciar ética e retidão de um minucioso trabalho de interpretação cênica no horário político na televisão, bem como discernir um brilho real de um programado, no olhar do candidato. Isso tem mais a ver com sua capacidade analítica e sensibilidade do que com “receitas de bolo” para distinguir os legítimos representantes do povo dos “salvadores da pátria” de ocasião. O mais próximo de uma sugestão que se possa apresentar é: observe, acompanhe, compare momentos e históricos. Até os mais preparados dentre os que passaram por competentes especialistas caem em contradição quando antes da campanha não eram exatamente como esperam que acreditemos quando se exibem no “palco”.
9 – SUAS ESPERANÇAS SÃO COMPUTADAS COMO VOTO. SEU HISTÓRICO DE DECEPÇÕES IDEM.
Sabe-se que, para quem acredita, nenhum argumento é necessário; e para quem não acredita, nenhuma evidência é suficiente. Cada um embarca na canoa que se mostre mais identificada com seus próprios padrões de valores, não importa de que lado se apresente. Então a única escolha confiável, como já ensinava Sidarta Galtama, é o caminho do meio! Quando se vai com muita sede ao pote a tendência é deixar de perceber imperfeições que saltam aos olhos dos outros. E quando, por outro lado, não acreditamos que alguém possa mudar coisa alguma, cai-se no extremo oposto de deixar “correr frouxo”, para que os oportunistas se aproveitem de sua indiferença e inoperância, independente do que façam. Aqui, a opção mais acertada é marcar a que expressa a fórmula do “nenhuma das alternativas acima”, é evidente. Em tempos de política aflorada, o mais prudente é adotar o equilíbrio como prática diária: não aceitar nem desacreditar de nada que lhe chega sem uma cuidadosa pesquisa dos fatos, por todos os meios a que se tenha acesso; não se deixar entusiasmar com promessas mirabolantes, nem tampouco dando ouvidos ao candidato que se mostra sensato e confiável demais. Ele pode ter sido muito bem preparado para isso. Então vale aprofundar a pesquisa de que falamos no tópico anterior, não se fixando em nenhum dos extremos entre ceticismo e confiança cega. Conhecimento, equilíbrio e prudência nunca são demais.
10 – NÃO SERÁ NOS PRÓXIMOS 4 ANOS QUE VOCÊ IRÁ OBTER O QUE NÃO TEVE NOS ÚLTIMOS 135, DESDE QUE PROCLAMARAM A REPÚBLICA.
Para finalizar esta lista, esteja atento para o fato de que uma única gestão não muda quase nada quando não existe um plano de governo focado em estratégias isentas de interesses puramente partidários. Todos conhecemos a mentalidade do “toma lá, dá cá”, inserida nessa selva de interesses da política partidária por todos os recantos do país.
Entretanto, nem todo “toma lá, dá cá” tem essa conotação nefasta que estamos acostumados a observar nas escusas trocas de favores entre nossos governantes. Ela se revelaria com elevados índices de positivismo, se aplicada à relação entre as esferas do poder e a população. Pudéssemos nós obter o retorno da elevada carga tributária a que nos submetem na mesma proporção em que as pagamos, e todos os nossos problemas estariam resolvidos. Mas, por mais confiável que se mostre o seu candidato, não espere que ele vá resolver em seu mandato tudo o que não foi obtido ao longo dos nossos 125 anos de vida republicana. O alerta é para cobrar o que é possível de acontecer em relação ao momento histórico que o país atravessa, e isso não é fácil de ser compreendido por qualquer cidadão, por mais comprometido politicamente que se mostre. Assim, “devagar com o andor que o santo é de barro”: pé no chão antes de achar que o “homem certo” é o que afirma que vai resolver todos os problemas que você enfrenta no seu dia a dia. Se ele se empenhar simplesmente no que é possível fazer, em vez de ser mais um a utilizar o mandato como cabide de emprego para si e seus “companheiros de lutas”, já terá sido uma grande contribuição para o país. Então busque a compreensão de que político bom é o que nos permite visualizar os avanços entre seu ponto de partida e a continuidade pelos que virão a sucedê-lo, mas que não se resolve as mazelas de um país como o nosso em 4 anos. Assim como um país precisa de estadistas mais do que de políticos, ele também precisa mais de visão sistêmica do que de imediatismo norteando as expectativas de seus cidadãos.
Luiz Roberto Bodstein
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